1º comandante do ferry boat recorda início da travessia e fala do sonho da Ponte de Guaratuba
Muito antes da ponte sequer ser cogitada, o ferry boat foi a solução encontrada há mais de 60 anos para
A Ponte de Guaratuba, que colocará fim a um gargalo histórico e ligará por completo o Paraná, promete trazer ainda mais progresso ao Litoral, que tem crescido ano após ano, resultado de obras estruturantes realizadas pelo Governo do Estado. Mas muito antes da ponte sequer ser cogitada, o ferry boat foi a solução encontrada há mais de 60 anos para promover a travessia de uma ponta à outra, e que tem ajudado a levar desenvolvimento para a cidade que hoje, para ser acessada por terra, apenas por Santa Catarina. Cerca de 40 milhões de veículos já transitaram no ferry.
O primeiro ferry boat a fazer a travessia na Baía de Guaratuba é de 1960, criado pelo governador Moisés Lupion. A embarcação, de madeira, media 27 metros de comprimento por 10 metros de largura e contava com dois motores GM de 130 cavalos. “Tinha sanitário a bordo, beliche na casa de navegação para dormir e armário com fogareiro para alimentação”, conta João James de Oliveira Alves, mais conhecido como Seu Janjão. “O nome do barco era ‘Engenheiro Ayrton Cornelsen’. Transportava dez automóveis e um caminhão leve. Não passava ônibus.”
A riqueza de detalhes tem motivo. Janjão foi o primeiro comandante do ferry boat, quando o serviço foi reinaugurado dois anos depois pelo governador Ney Braga, após obras na embarcação. “Devido a flexibilidade do barco houve problema de estanqueidade [entrada de água]. A Capitania decretou a retirada da travessia, e o barco foi ao estaleiro para manutenção. Retificou o calafeto [vedação de frestas], colocou da linha d’água para baixo chapa de cobre, revestindo todo ele. Resolveu”, explica.
Natural de São Francisco do Sul, município catarinense, Janjão chegou ao Litoral do Paraná através do convite de um amigo, cujo irmão procurava alguém experiente com embarcações para comandar o serviço de travessia. “Perguntei para ele o que era ferry boat, no que ele me explicou que era um barco que atravessa os carros na Baía de Guaratuba, de um lado para o outro. Na hora eu disse sim”, recorda, sobre o dia que mudaria sua vida para sempre.
Janjão esteve embarcado no ferry boat de Guaratuba de 1962 a 1978, ou como gosta de frisar, “15 anos e quatro meses”. Ele veio sozinho para a cidade, deixando a família em Joinville até que as coisas se ajeitassem por aqui. Na região de Caieiras, Janjão foi pioneiro. Ajudou a construir escola, batalhou por um acesso exclusivo para a localidade, deu aulas para formar mestres em ferry boat, como também são chamados os comandantes. A família veio na sequência, e ali atracaram para nunca mais sair.
Durante os mais de 15 anos no comando da travessia, primeiro com o barco Ayrton Cornelsen e depois com as embarcações Iguassu e Tibagi, Janjão viu de tudo um pouco no ferry boat de Guaratuba. Transportou autoridades, como o próprio governador Ney Braga e o ex-presidente paraguaio Alfredo Stroessner, que se exilou na cidade por dois meses após ser deposto, em 1989. Levou de artistas a pessoas comuns.
Um dos episódios mais marcantes em sua trajetória, porém, foi o afundamento de parte da cidade, onde hoje está localizada a Praça dos Namorados. Na noite de 22 de setembro de 1968, um homem bateu na porta de sua casa. Era o amarrador do ferry boat. “Comandante Janjão, estão chamando o senhor. Guaratuba está caindo. É preciso prestar socorro. O ferry boat já está guarnecido, o condutor está a bordo virando motor. Só precisa da sua presença para fazer a travessia. É urgente”, disse o homem à época.
“Peguei a documentação que tinha, a máquina de tricô da minha esposa, que era de valor, e avisei os vizinhos que estavam aqui, uma meia dúzia. Chamei todos e anunciei que Guaratuba estava caindo. Não tinha estrada e nem luz em Caieiras. Era pela trilha do morro, pelo mato, para chegar no ferry. Foram todos comigo, embarcados no Tibagi”, relembra. Prefeitura, comércio, casas, tudo naquela região desmoronou.
“Iniciamos a travessia trazendo socorristas, médicos, policiais, tudo veio de Paranaguá para prestar socorro aqui. Fizemos esse trabalho até as três horas da manhã, quando a maré iniciou a vazante. Nisso vieram armações de casa, assoalhos, móveis, tudo. Não tinha mais condição de atravessar”, complementa. “Os moradores embarcaram, muitos só com traje íntimo, em caminhões e ônibus, e foram para Garuva, com medo de que Guaratuba caísse toda. Mas não caiu”.
A VIDA TAMBÉM PASSA ALI – Em 1975, a esposa de Janjão, grávida da filha caçula, precisou usar o ferry boat para ir até o hospital. “Aqui não tinha maternidade, sendo preciso ir a Paranaguá. O médico examinou e disse que estava tudo bem, mas que a menina só nasceria no dia seguinte, depois da meia-noite. Ela ficou internada e eu voltei para Guaratuba. Na manhã seguinte, fui ao DER ligar para a maternidade, porque não tínhamos telefone. ‘Pode ficar tranquilo, nasceu a menina, está tudo bem’, me falaram.”
Havia nascido a sétima filha de Janjão. Para escolha do nome, a tradição. “Meu pai dizia para colocar o nome dos filhos com mar. ‘Tem que botar mar, porque tu és do mar, assim como eu’”, lembra o comandante. E ele seguiu o ensinamento. “Gilmar, Vilmar, Edilamar, Lindomar, Rosemar, Altemar e Lucimar, tudo com ‘mar’. E a minha esposa é Maria, com o mar na frente. Tem história.”
OUTRA ÉPOCA – Quem vê hoje as seis embarcações que fazem a travessia na Baía de Guaratuba não imagina o desafio que era realizar esse serviço há quase sete décadas atrás.
Naquele tempo, uma embarcação saía às seis da manhã, outra ao meio-dia e, dali em diante, rodavam até às 18 horas, ou então noite adentro em caso de fila. “Guaratuba não tinha luz. Era a luz de bordo que iluminava para fazer a atracação. Nunca aconteceu acidente algum sob meu comando. Até com cerração eu atravessava, porque eu tinha conhecimento da maré”, afirma o comandante.
“Com neblina eu só atravessava com maré parada. Tinha os rumos certos, o tempo certo para fazer isso”, recorda, ao citar que hoje em dia as embarcações contam com sensores, radares e GPS para orientar o mestre. “Nós fazíamos fogo em tambores em um porto e no outro para enxergar bem onde ia atracar, e batíamos nele para também se guiar pelo som. Contávamos com holofote de bordo, o farol de busca. Nunca houve anormalidade no meu trabalho”, diz, com o sentimento de orgulho no olhar ao contar sua trajetória.
Para quem passou a vida ouvindo histórias, o sentimento é compartilhado. “O pai tem uma visão muito profissional. Eles tinham esse conhecimento de maré baixa, maré parada. Hoje em dia muitos não sabem. É força no motor, guinada de qualquer lado e isso é estranho para ele e para nós, porque estamos acostumados do jeito que ele explica como tem que ser”, destaca Lucimar, a filha que atravessou a Baía de Guaratuba ainda na barriga da mãe. “Naquela época não tinha radar, era tudo visual”.
Com amplo conhecimento e experiência que faziam ser possível a travessia sob forte neblina, Janjão ajudou inclusive que um enterro fosse possível. “Chegou um senhor com um carro funerário vindo de Florianópolis com destino a Curitiba. ‘Não dá para atravessar rapidamente?’, ele me perguntou, no que eu respondi que daria, no momento certo. Dei a hora mais ou menos em que ia atravessar e deu certo, com cerração fechada”, resgata na memória intacta que carrega no alto de seus 91 anos.
O FUTURO CHEGOU – Tendo trabalhado desde o início da travessia, Janjão sabe da importância que o ferry boat teve para o desenvolvimento de Guaratuba. Foi por meio dele que a cidade cresceu, se desenvolveu e tornou-se uma das principais cidades litorâneas do Sul do País.
Mas ele também entende a importância que a ponte terá para garantir que esse desenvolvimento possa continuar. “O ferry boat, às vezes, faz fila que vai lá no centro da cidade. Leva horas e horas esperando para atravessar. Pelo desenvolvimento atual, pelo grande número de veículos que circulam na cidade e na estrada, a ponte, sem a menor dúvida, é uma grande obra para nós”, destaca.
Acompanhando todo o processo de construção de perto, com as inúmeras vezes em que a ponte foi prometida, mas não entregue à população, Janjão sentia que podia contribuir, visando que o melhor modelo fosse adotado para colocar um ponto final no transtorno causado pela falta de uma estrutura condizente a altura de Guaratuba e do Paraná.
“Quando eu vi o projeto da ponte ligando o Porto da Passagem até o morro onde tem a torre da Copel, resolvi fazer um croqui da ponte, ligando estrada com estrada, com cerca de 1.200 metros. Sei disso pela travessia do ferry boat, que tem essa distância. Nesse croqui a única agressão à natureza com as obras da ponte seriam as estacas fincadas no fundo do mar”, comenta. Ele levou o croqui até a prefeitura, em 2021. “Acho que levaram para o governador, porque depois abriu a concorrência com essa ponte que está aí, da forma que sugeri”.
Em julho de 2024, Seu Janjão recebeu o título de Cidadão Honorário do Município de Guaratuba, concedido pela Câmara Municipal em reconhecimento aos seus serviços e engajamento na comunidade. “Eu sou um soldado desconhecido. O que eu faço não é visando benefício financeiro, mas sim em benefício da comunidade, para ajudar as pessoas”. É isso que fez ao longo de toda sua vida, e continua fazendo.
FALTA POUCO – A construção da Ponte de Guaratuba chegou ao fim de 2025 com um índice de execução de 88%, já em sua reta final e com previsão de entrega para o mês de abril. A obra avançou em todas as frentes de trabalho, com destaque para a finalização completa da infraestrutura e progressos expressivos no trecho estaiado, que já é um cartão-postal da região antes mesmo de ser finalizado.
Com 1.240 metros de extensão, a ponte vai eliminar a dependência da travessia por ferry boat, trazendo mais agilidade, segurança e integração ao Litoral do Estado. A estrutura contará com quatro faixas de tráfego, ciclovia, passeios e iluminação viária, representando um dos maiores investimentos em mobilidade da história do Paraná, com aporte de R$ 400 milhões.
Depois de pronta, Janjão vai seguir a mesma rotina que leva hoje em relação a balsa. Usará a ponte apenas para ir ao médico em Paranaguá, de tempos em tempos. O objetivo dele é aproveitar a vida que construiu ali, em Caieiras, ao lado da esposa, filhos, netos e bisnetos, em uma casa projetada por ele, um sobrado com vista de 360º, o qual lhe remete às embarcações que navegou durante mais de 50 anos. Tudo ali, pertinho da tão esperada Ponte de Guaratuba.(AEDN).
