Escola para jovens e adultos de Londrina bate recorde de aprovados em universidades

O Paraná conta com 54 Ceebjas para o ensino de jovens e adultos que não concluíram seus estudos em idade

O Paraná conta com 54 Ceebjas para o ensino de jovens e adultos que não concluíram seus estudos em idade regular – outros nove são voltados para atendimento exclusivo de pessoas em privação de liberdade. A grade curricular é oferecida em blocos semestrais de componentes curriculares: quatro para os Anos Finais do Ensino Fundamental e três para o Ensino Médio.

O Centro Estadual de Educação Básica para Jovens e Adultos (Ceebja) de Londrina tem grandes conquistas para comemorar em 2026: nove alunos da instituição conseguiram a aprovação em diversos vestibulares de universidades do Paraná, inclusive públicas, entre elas a Universidade Estadual de Londrina (UEL), a Universidade Técnica Federal do Paraná (UTFPR) e o Instituto Federal do Paraná (IFPR).

A unidade do Ceebja de Londrina já tinha um histórico de aprovações. Pelo menos desde 2021, de três a quatro estudantes da instituição de ensino ingressavam no Ensino Superior todos os anos. Em 2026, porém, esse número mais que dobrou. Outras das instituições que também aprovaram estudantes oriundos do Ceebja foram a Universidade Norte do Paraná (Unopar), a Universidade Filadélfia (UniFil) e o Instituto de Ensino Superior de Londrina (Inesul), de Londrina, e a Universidade Cesumar (UniCesumar), de Maringá.

“Essas conquistas dos nossos alunos vêm para comprovar que o ensino dos Ceebjas é de qualidade e atende à demanda desses estudantes por ingresso no Ensino Superior”, avalia o secretário de Estado da Educação, Roni Miranda. “Também representam uma nova oportunidade profissional para essas pessoas, além de desenvolvimento pessoal e social”.

ENSINO INCLUSIVO – O Paraná conta com 54 Ceebjas para o ensino de jovens e adultos que não concluíram seus estudos em idade regular – outros nove são voltados para atendimento exclusivo de pessoas em privação de liberdade. A grade curricular é oferecida em blocos semestrais de componentes curriculares: quatro para os Anos Finais do Ensino Fundamental e três para o Ensino Médio.

Rosangela Lopes Ferreira Menoncin atua como diretora do Ceebja de Londrina desde 2017. Ela lembra como a maioria dos seus alunos enfrentam desafios diários em relação aos estudos. Muitos são pais, mães, chefes de família, que deixaram de estudar quando adolescentes por vários motivos e que agora desejam recuperar o tempo perdido enquanto ainda enfrentam obstáculos pessoais e profissionais.

“A aprovação desses alunos representa uma grande vitória para o Ensino de Jovens e Adultos. Para nós, direção e professores, é gratificante ver nossos alunos cursando uma universidade”, comemora Rosangela.

Ela conta que o Ceebja de Londrina desenvolve ações específicas voltadas à preparação dos alunos para o vestibular. Duas vezes ao ano, a instituição aplica simulados para que os estudantes se familiarizem com o tipo de questões cobradas em vestibulares. Além disso, explica Rosângela, a instituição conta com um corpo de professores engajados, atuantes no espaço escolar e sempre disponíveis para colaborar com os alunos. As aprovações vêm para corroborar todo o trabalho desenvolvido pela escola.

“É a comprovação de que estamos no caminho certo, de uma educação inclusiva, que dá oportunidade de crescimento e de conhecimento para todos os nossos alunos”, avalia a diretora.

NOVA OPORTUNIDADE – Entre os alunos do Ceebja de Londrina que conquistaram uma vaga no Ensino Superior está Hosana das Neves Correia. Aos 48 anos, ela foi aprovada no Curso de Licenciatura em Ciências Biológicas do Instituto Federal do Paraná, em Londrina. “Biologia me faz pensar na origem da vida, o que me fascina muito”, diz Hosana. “E como eu ajudava meus colegas de sala, no período em que estudei no Ceebja, eu me senti estimulada a lecionar”, diz.

O ingresso dela se deu pelo Sistema de Seleção Unificada, o Sisu, que utiliza a pontuação obtida no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) como critério classificatório.

A história de Hosana com o Ceebja começou ainda em 1997. Depois de ter reprovado em duas ocasiões no ensino regular, ela optou por continuar os estudos no ensino de jovens e adultos. Porém, já no último semestre para concluir os estudos, Hosana engravidou da primeira filha e teve que abandonar a escola. Ela só retomaria os estudos em 2024, aos 46 anos.

“Depois de divorciada e com minhas filhas criadas, criei coragem e voltei ao Ceebja”, conta. Decidida a continuar de onde havia parado, Hosana resolveu encarar um desafio adicional: ingressar no Ensino Superior.

Inicialmente, ela pensava em um curso à distância, mas foi incentivada por uma professora a tentar uma universidade pública. “Ela disse que eu era capaz e inteligente, o que foi fundamental para a minha decisão, pois aumentou minha autoestima e me deu coragem para tentar”, lembra.

Contando com o apoio da equipe escolar, e de toda sua família, principalmente das filhas, sem cujo apoio ela diz que não teria ido tão longe, Hosana ainda alimentava dúvidas quanto à sua aprovação, quando enfim pôde consultar o resultado do processo seletivo.

“Quando eu vi meu nome entre os aprovados a sensação foi indescritível”, comemora Hosana. “Depois do nascimento das minhas filhas, ingressar no Ensino Superior foi meu melhor momento”.

SUPERAÇÃO – Outra história é de Fabiane Lacerda da Cunha. “Segui meus estudos normalmente desde a infância até a adolescência, porém o vestibular foi o meu maior desafio”, relembra. “Então, para não o encarar, eu desisti e deixei para trás meu maior sonho: ser professora”. Ela chegou a abandonar os estudos, ainda no início do último ano do Ensino Médio. “No lugar do sonho, ficou a vergonha por conta da frustração de me sentir incapaz”, confidencia.

Pouco mais de duas décadas depois, porém, aquele desafio foi superado, com o nome de Fabiane constando entre os aprovados no curso de Filosofia da UEL.

Entre um fato e outro, Fabiane se casou e teve filhos. Houve uma tentativa de conseguir o certificado de conclusão do Ensino Médio em 2023, quando ela se inscreveu para o Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja), avaliação direcionada a jovens e adultos que não tiveram a oportunidade de concluir os estudos em idade própria. Por muito pouco, porém, ela não conseguiu a certificação, o que fez com que o antigo sentimento de frustração voltasse.

Mais tarde naquele ano Fabiane entenderia melhor esse sentimento e os motivos que a levaram a abandonar os estudos: ela recebeu o diagnóstico de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), condição caracterizada por sintomas de desatenção e impulsividade, além de baixa tolerância à frustração. “Para mim, foi um grande alívio, porque vi minha vida toda sendo explicada”, desabafa.

Já em 2025, incentivada pela esposa Myllenna, ela resolveu se matricular no Ceebja de Londrina para finalmente concluir os estudos. Foi a companheira, também, que insistiu para que ela prestasse o vestibular para Filosofia – uma paixão da maturidade que ajudou a reacender o interesse pelo Ensino Superior.

Assim, por dois meses, conciliando os dias de aula no Ceebja, os estudos na biblioteca municipal – “grande aliada”, nas palavras dela – e o tempo com a família, Fabiane se preparou para o vestibular da UEL, cujo resultado foi publicado em dezembro do ano passado.

“Senti pela primeira vez o que muitos jovens sentem, a emoção de ver o nome na lista de aprovados. É um sentimento único e surreal”, comemora. “E por isso tenho toda gratidão pelo ensino público, pelo Ceebja, que não recebe o reconhecimento que merece, e pelos professores, que atendem com dedicação cada um dos alunos”.(AEDN).