Calor extremo e seca no verão desafiam volta das ligas da Europa
Altas temperaturas, restrições de água e gramados ressecados afetam clubes, expõem abismo entre campeonatos de elite e futebol amador, e
Altas temperaturas, restrições de água e gramados ressecados afetam clubes, expõem abismo entre campeonatos de elite e futebol amador, e levantam debate sobre adaptação do esporte
Na região da Europa Ocidental, que inclui Espanha, França e Reino Unido, o período entre junho e julho deste ano foi o mais quente da história, segundo dados do Observatório Climático da União Europeia. O continente enfrenta nesta semana a 5ª onda de calor desde maio.
É nesse contexto que a Premier League desta temporada começa na sexta-feira. O Campeonato Francês também está de volta. LaLiga já teve jogos da primeira rodada, mas Barcelona e Real Madrid só entram em campo neste fim de semana. A Serie A da Itália retorna no domingo, e a Bundesliga da Alemanha, mais para frente, no dia 28.
Inglaterra: campos duros como pedra
Mais de 70% da Inglaterra estava em estado de seca na semana passada, e 27 milhões de pessoas viviam sob restrições ao uso de água. Inglaterra e País de Gales tiveram o mês de julho mais seco em 190 anos. Algumas regiões receberam 1% da média de chuva esperada para o período.
O calor extremo tem afetado transporte público, sistema bancário e rede escolar do Reino Unido. Não seria diferente com o esporte. A Anglian Combination League, liga amadora de 85 times ingleses, foi obrigada a adiar o início do campeonato em duas semanas. Os gramados estão secos e duros demais. Viraram ameaça à integridade física dos jogadores.
A federação de futebol da Inglaterra precisou lançar um guia para ajudar clubes, ligas e árbitros a lidar com esse tipo de situação nos gramados e avaliar se é seguro ou não jogar. Porém, a entidade afirma que não há uma “suspensão geral” para a prática do esporte em grama seca.
Essa não é a realidade da Premier League, a liga mais rica do mundo — hoje com receitas acima de 6,8 bilhões de libras, ou R$ 47,9 bilhões. Os clubes da elite do Campeonato Inglês têm recursos para se adaptar ao cenário adverso e preservar a qualidade dos gramados dos estádios.
Procurada pelo ge, a Premier League explicou que as restrições do uso de água para irrigação variam de acordo com a região da Inglaterra, não são iguais para todos os clubes. Se a temperatura no início de um jogo for de 30° C ou mais, o árbitro pode aplicar a pausa para hidratação.
— O esporte profissional tem permissão para irrigar os gramados e mantê-los em boas condições. Mas há muitos lugares no Reino Unido em que há restrição para o uso de mangueiras ou sistemas de irrigação. O resultado para o esporte amador, já que não chove há tanto tempo, é que os campos ficam duros como pedra. Isso tudo abre uma discussão interessante sobre até onde o esporte pode se adaptar — disse Claire Poole, fundadora e CEO da Sport Positive, organização que ajuda a comunidade do esporte a aumentar suas ambições climáticas.
Liga da França investe em monitoramento
A preocupação com os efeitos do verão extremo na Europa já chegou à Ligue 1. A Liga Francesa de Futebol Profissional (LFP) fechou parceria com o laboratório IAGE para ajudar os clubes a monitorar os impactos negativos nos gramados, incluindo doenças e fungos.
A intenção dos clubes da primeira divisão do Campeonato Francês era aproveitar os meses sem jogos e shows para restaurar os campos dos estádios e centros de treinamento. Mas alguns foram atingidos por patógenos. O serviço também será prestado para a segunda divisão.
O calor não só deixa a grama seca. Ele altera a frequência da manutenção, o tempo de recuperação, a qualidade da superfície, entre outros aspectos.
— De forma sistêmica, eventos extremos estão aumentando em frequência e intensidade. Em um planeta cada vez mais quente, os extremos são potencializados e podem também ocorrer ao mesmo tempo ou em sequência, tornando o impacto ainda pior. É importante entender que a crise climática atravessa todas as áreas, inclusive o esporte. Junto às medidas de mitigação, as medidas de adaptação climática são necessárias para nos tornar mais resilientes e preparados para o mundo que já temos e para o que teremos — explicou Karina Bruno Lima, doutora em Climatologia e pesquisadora na Universidade de Erlangen-Nuremberg, Alemanha.
