“Patria potestad”: entenda regra na Argentina que pode impactar a renovação da seleção

Normativa da federação de futebol do país limita a convocação de juvenis que forem para o exterior usando a autoridade

Se Lionel Messi tivesse 13 anos hoje e decidisse deixar a Argentina para seguir a carreira no exterior, o caminho até as seleções de base poderia ser bem diferente. No ano de despedida do craque da equipe nacional, o futebol argentino vive o debate sobre uma decisão da federação de limitar a convocação de juvenis que deixam o país antes de assinar o primeiro contrato profissional. O ge explica.

O que é “patria potestad”?

A Associação de Futebol da Argentina (AFA) estabeleceu no início deste ano uma norma que veta a convocação para as seleções nacionais de base jovens jogadores que deixem seus clubes e migrem para o exterior usando o mecanismo de “patria potestad“, antes de firmarem o primeiro contrato profissional.

Em termos brasileiros, o conceito de “patria potestad” está ligado à autoridade parental: direitos e obrigações que os pais ou responsáveis têm sobre os menores de idade, salvo quando o menor é emancipado. No futebol, o mecanismo permite que a família decida pela saída do jogador em determinadas circunstâncias, inclusive quando ele ainda não assinou vínculo profissional com o clube formador. A questão envolve o regime de transferências internacionais de menores da Fifa.

Imagine, por exemplo, uma família que se muda da Argentina para a Espanha porque o garoto precisa se submeter a um tratamento médico que só pode ser realizado naquele lugar. Foi algo semelhante ao que aconteceu no passado com Lionel Messi, que deixou o Newell’s Old Boys e entrou para as categorias de base do Barcelona.

Ele fez isso aos 13 anos, portanto muito antes da idade permitida para assinar contrato profissional com o Newell’s ou outro clube da Argentina. O contexto de sua saída, porém, não é idêntico ao dos casos que motivaram a nova política da AFA.

Outras questões podem motivar o recurso do “patria potestad“, como a transferência profissional de um dos pais. Ou uma proposta econômica e de desenvolvimento esportivo superior àquela que o atleta já tem.

Se o menor ainda não tiver assinado seu primeiro contrato profissional na Argentina, ele pode se recusar e ir para o exterior, no exercício da responsabilidade parental. Mas para isso, precisa atender a uma série de requisitos, como estabelecido pelo artigo 19 do Regulamento sobre o Estatuto e a Transferência de Jogadores, da Fifa.

O que a AFA decidiu, portanto, é, como instrumento de desestímulo a esse caminho: não convocar mais os jovens que façam uso desse mecanismo legal e se transfiram para jogar fora da Argentina antes de assinarem contrato com o respectivo clube formador.

A medida abre discussão jurídica.

— Essa decisão não é uma sanção disciplinar. Também não é uma sanção esportiva. É uma decisão que a AFA pode adotar livremente, porque se trata de uma prerrogativa relacionada à elegibilidade de seus jogadores para as seleções. A meu modo de ver, é uma medida absolutamente correta. O jogador que se recusa a assinar um contrato com o clube que o formou, educou e treinou para chegar ao nível em que está hoje tem todo o direito de fazê-lo. Agora, assim como a seleção pode escolhê-lo, ela também pode não escolhê-lo — explicou o advogado Marcelo Bee Sellares, especializado em direito esportivo na Argentina.